EUNIVERSO

Precisava te encontrar pra contar a quanto ando desvalida.
Minha alma sentará numa dessas mesas de bar e derrubarei metade do meu corpo cansado em cima da mesa enquanto tomas fôlego.
Sei que não conseguirá me ouvir.
Minha mudez é a nudez que corre pelas ruas em vaias, interruptos cantos entranhados debaixo da língua.
Nesse cubículo que me encaixo dentro do meu euniverso, fico em busca do que já é concreto e certamente errante retrocesso, como alguns processos inertes.
Inerte!
PAUSA....
Dora Alice levanta da cadeira olhando o publico que lhe assiste, uma lagrima escorre.
Borrando sua maquiagem, os olhos brilham - agora olhando para o alto e ouvindo o som da canção que vai chegando ao final.
Anda de um lado para o outro desviando seu olhar abrindo a boca:
A palavra é essa meu caro!
Existe muito espaço em mim, e assim estancado tudo se perde e me preenche com a perdição.
A porta?
Já anda velha e preciso trocá-la.
Elas batem muito antes de sair e de tanto bater a madeira já estragou.
Mas lhe garanto que a dobradiça está intacta, acho que é por ser de forte aço.
Mas a madeira coitada!
Em dias de chuva fede e brotam feridas de ar, parasitas tomam conta como se ela estivesse em completo abandono.
E pra ser bem sincero, está.
Fico a maior parte do dia no corredor que ao final vai dá na porta, plantado numa cadeira de balanço em vigília admirando quem entra e quem sai.
Mas o que mais me incomodava mesmo era o barulho da mola enferrujada da cadeira de balanço, ela geme tanto que dá até dó.
Se eu conseguisse sair de cima dela talvez criasse coragem e colocaria as pernas pra andar pelo resto da casa.
Quem sabe até encontrasse um óleo para aliviar sua dor.
Mas a dor atualmente...... A dor é só dela.
No começo era uma dor insuportável aos ouvidos, hoje até gosto...
O barulho me faz companhia.
Então colocando óleo nas molas eu me sentirei só outra vez.
E como disse antes......
A dor não é mais minha.
Falando em dor, semana passada um médico foi me visitar.
Me deixou um livro grosso para ler até a próxima visita e me receitou no mínimo doze nomes diferente de remédios.
Coitado!
Acho que mal sabe ele que não suporto tomar remédio.
Primeiro porque ele não me disse qual seria minha doença, passou horas me revirando de um lado a outro me investigando sob aquele olhar fundo de garrafa e não falou se quer uma palavra, também eu não lhe disse nada.
Sinto-me tão bem e tudo tão tranqüilo ao meu redor.
O que há de errado como as pessoas?
Mania de procurar doença nos outros.
Continuando...
Bom, segundo é que nem sei por que ele me deixou um livro de duzentos e cinqüenta páginas.
Não leio nem jornal pra não ver o que a humanidade anda fazendo de mal pelo mundo a fora.
Onde já se viu?
Duzentos e cinqüenta páginas...
Ainda mais com aquela capa...
Uma mulher apavorada gritando para os surdos.
Já me assustou só de ver a capa.
Depois que ele foi embora fiquei pensando...
Acho que aquele doutor está doente, ou louco...
Mas cheguei à conclusão que o velho é surdo, mudo e quase cego.
Disso ninguém me prova o contrário.
Lembrei-me de algo interessante que me aconteceu hoje pela manhã.
Você precisa ficar sabendo dessa nova.
Acordei com uma ira que não sei de onde veio tal sentimento.
Lembro que quebrei os telhados de minha casa com as panelas de aço jogadas pra cima.
Como as telhas são frágeis!
Mas lhe garanto que as panelas estão intactas, acho que é por ser de forte aço.
Depois de destruir tudo que é frágil da minha casa mergulhei nadando entre a fragilidade da matéria.
Meu rosto se perdeu em meio tanta fragilidade.
A roupa se misturou e se acinzentou em meio tanta sujeira.
Me senti parte dessa sujeira frágil.
Até os braços cansarem e não conseguirem dar mais braçadas.
Até ficar submerso!
De lágrimas...
Até deixar meu silêncio falecer e de dentro de mim estampar o grito da dor de estar viva.
O que lhe dirão, meu caro espelho meu?
A LUZ SE APAGA...


Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel

Grava Dores

“Num rosto fosco, a certeza da fragilidade trágica...”


Antenor agarrado ao telefone, papel amassado com o numero escrito em esferográfica azul tentara pela décima primeira vez ligar para sua amada Dora Alice.
Em cada tentativa se embriaga em mais uma dose de uísque.
Ele chora, se desespera, bate outra vez o telefone que sempre cai numa voz suave lhe pedindo para deixar sua mensagem apóso sinal...
Antenor se entrega a mensageira eletrônica e decide deixar sua gravação.

Telefone chamando...
Querida mulher qualquer coisa minha, venho há tempos num querer desenfreado e estagnado de transformação.
Alterações de títulos, voltando pra ponta de estaca.
Meu tempo é tão curto, quase nada.
Minha voz é quase rouca dentro da fita em que deixo minha mensagem na ausência do querer análogo.
Estou te chamando...
Telefone continua chamando...
Como sempre...
Como nunca tinha feito tal desespero.
Minha mente pensa exageradamente, nunca me dá um tempo pra pensar que eu posso ser eu, ou poderia aceitar ser o que minha mente quer que eu seja...
Continuo a te chamar, me atenda meu bem...
Somente tom de lá.
Secretária Eletrônica Atende...
REC/PLAY
Respire forte ser...
Pois bem...
Faz tempo eu venho chorando com esse, aquele, aquilo, numa ressaca do amor desfigurado.
Camisa de botões quebrados numa loucura de rasgar com os dentes o pano que cobre minha indecência, vendarem o olho bolor e me sentir o pior cego.
Talvez até permitir permutar minha compaixão.
Como se já não bastasse, venho inventando certos acasos para o encontro coincidente, nada mais me serviria se não fosse pra estancar um pouco essa lágrima crua.
Só para estar ali, aqui em outro lado, em outros seres, escondido atrás de um copo de uísque, gelo triturado entre teus dentes.
E depois do torpor, cair na própria existência...
Lançado em um quarto infinito cheio de estrelas perdidas no chão, tateando paredes negras com gotas de orvalho...
Sentindo um raio no centro do crânio até chegar ao chão, abrindo uma vala pro meu próprio esquecimento.Sem esquecer que sempre sonho quando estou perto ou longe.
Mas é sempre um parto, uma dor, um aborto sentimentalizado em qualquer razão.
Sempre um ADEUS um até, talvez, nunca mais...
Está sempre muito longe como qualquer um desses sorrisos carismáticos, é esse maldito sorriso perdido que me enche o pulmão de ar...
Queria que durasse a vida inteira e ainda os outros dias.
Não queria que um dia essa fita em mofo se perdesse ou ficasse perdida na próxima gravação.
Confesso estar de boca seca, com língua rachada de tanto sol escaldante e o mar que já virou sertão.
É com essa última lágrima que deixo os fatos claros e escuros, num pisca alerta.Sei que meu tempo é realmente muito curto feito um circuito...

...

A ligação cai.
Antenor deixa o telefone cair de seu rosto.
Vira e aponta o dedo para o telefone caído ao chão continuando...

Você já sabe que vou partir?
Que na madrugada de ontem olhando para esse céu tremulo tive a idéia de sumir num balão de luz até a lua?
Foi assim que me vi sumindo dessa síndrome do querer inacessível.
Não esperarei o último Zepelim sobrevoar tua cabeça esquecida feito um belo imbecil!
É hora do despertar sem levitar o corpo, desvendarei o lenço negro que cobre meus olhos e me permitirei enxergar.
Mas estou cego! Cego!

Antenor cai ao lado do telefone...

Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel

Aborto da natu... Reza!

Caído, Antenor é saudado com uma ciranda de crianças que giram com seu corpo ao centro.
em breves instantes...
Dora Alice invade o quarto de Antenor, entra no meio da ciranda entrelaçando suas mãos as das crianças.
Enquanto gira as crianças se calam

Sei, sei...
Estou sendo mui fatalista...
Vi o fim do mundo dentro do teu espelho, meu caro: estás fora de órbita longínqua!
Vermelha é a cor da tua menina-demônia.
Sim, a dos teus olhos vestida de sangue até os braços.
Meu olhar também anda assim, sem pernas, com os cabelos barrando entradas corpóreas estranhas.
As entranhas, como ardem... Sua neném banhou meu ser por dentro com urina.
Fogo fátuo.
Não vou parir labareda placentária, nem sou otária de bom tamanho a dar língua mui fácil.
Vou digerir ácido Soul-fúrico para matar a larva podre mal lavada.
O que permeia um vulcão?
Sou a própria erupção de tua ilha, homem!
Cercada de lava por todos os lados!
Lembras tu que me dissestes o que em mim carregava?
Um bicho malvado dentro do estômago a te causar ânsias de vômito pelo ânus.
Então não te chegues mais perto a meu ventre, sumirei da tua vida feito a fuga da cadeia alimentar.
Estou obesa, oblíqua, disforme.
Não quererás saber do fim desta história.
Comece.
Coma.
Dê fé que cure!

Dora Alice coloca o telefone no gancho, segurando na mão da criança a sua esquerda desfazendo o circulo e sai puxando as crianças que estão de mãos dadas...
Como um elo partido se esvaindo...


Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel

Telefones Grampeados

O telefone toca...
O corpo de Antenor não está mais lá - Como se nada estivera acontecido.
Uma mulher enrolada numa toalha atende ao telefone...
Inicia uma conversa com um estranho do outro lado.

- Quero renascer das cinzas, das trevas medianas.
- Como assim trevas medianas?
- Nem tanto o mar nem tanto a terra. No meio, no miolo da alegria e dolor.
- Quero voltar ao meu estado barateano. Copular com computadores na feitura de algo bom. Pessoas me cansam.
- E eu idem. Loucura... Cheguei a te dizer?
- Disse o quê?
- Foi só meio rimático, de tele transportar a mensagem-coisa, som e fúria. É disso que precisamos.

Depois caminhar, sentindo a areia nos pés e o sol nas costas, despencar da altura de meu corpo até a cara ser sugada pela lei gravitacional anulada no resultado de um coice. E quando eu estiver engolindo areia e o sol, pesar corpo afora, você vai ler o velho Machado póstumo.
- Quero gritar na cara dos indigentes meu amor pela grotesquidão deles!
- Estamos sempre no fio da navalha.
- Quase sempre... E meu desleixo com a afetação feminil fresca e aguda?
- Sempre 'quase' nos encontros e desencontros...
Dóris! Precisamos lavar os dentes urgentemente com a água da fonte que só temos na gaiola
- Estou alucinada por nada e por Lúcia, prima-mor de lúcifer caído. Estou com raiva, com frio, com tristeza.
- Se estiver na hora, me desperte ou me deixe cair com rosto no bebedouro, transpirar de rir e te ver no embaço das horas. Orai por nós!
Inventaremos um novo manuscrito, uma nova doutrina e se não tiver tele transporte o lixo estará carregando minha carcaça
- Precisamos ir ao encontro das almas. E tem de ser agora!
- Estou putrificando a áurea, agonizante.
- Escolha: o lenço azul ou o vermelho?
- Vermelho sempre na fúria...
- Sei que o vermelho te atrai. A cor azul desperta tua curiosidade. Somos constituídos de escolhas quase.
- O azul me pacifica. Mas se mesclar os dois dará violeta, flor ou cor que sempre preferi.
- Somos dois complementos nessa intersecção.
- Será? Tudo é ilusão de ótica míope.
- O violeta é o que está no meio de nós, feito espírito santo. Até miopia é idem numeral ordinário. - Quebrei o pombo de gesso, ele voou pra bem perto.
- Pus lentes negras novinhas hoje, quero que se reflita em meus olhos.
- Eu morreria com prazer hoje. A única coisa a me libertar, por hora, é a música, as letras...
- Baseado em nosso antiquário desértico, flor renascentista, eu renasceria com todo escárnio de ser o fruto da costela.
- As faces enganam pior, a beleza do não literal é menos passageira.
- E os cânticos de Hosana aos passageiros dos navios negreiros...
- Do Inferno de Dante e de Rimbaud!
- Best Seller´s de Umbanda é seu Zé sentado à tua espera?
- Os de dantes não eram assim. Que morram todos os alados!
-Assim ficará estúpida esculpida.
- Vou procurar o menino Jesus dentro da lata do lixo virada por canibais pé duros.
- Não servirás nem de concubina ao teus magistrais!
- Não sejais tão hipócrita, concubinas são mais puras que qualquer mãezinha da alta sociedade, saciedade de futilezas.
- Não deves blasfemar contra o que não tem certeza, somente viva e se deixe descobrir.
- Não temos certeza de nada, sempre há o surpreender e, se para pior, prioridade desse destino de merda!
- Por isso, deixe escorrer da memória o teu veneno mais azul.
- Eu preciso é chutar o azul, cuspir na cara da velha!
- Use os sentidos e une aos seus corpos perdidos. Clamando assim podes ficar grudada em arame farpado e nem te quero ver escorrer em meus pés, sangue latino.
- Empresta-me teu revólver?
- Estou sem balas, meu amor.
- Não ligo para vaidade, para vitimada, povo nojento.
- Tome uma aspirina e prenda a respiração. Não seja tão real, pois nada aqui é.
- Não preciso de química, a minha natural já está aflorada.
- Tudo se projeta conforme nossos pensamentos. Sinto o cheiro... Nem sei de que pele se protege. - Livros de auto-ajuda ajudam só o autor esmoléu! Deixe-me ser um choro em dura estalactite.
- Já te disse que às vezes somos clonados e violados quando te vejo na minha menor idade?
- Perfuro pés e mãos, crucificadas e pendidas.
- Deves destilar essa dor e me oferecer um gole. Não me venha novamente com cristianismos.
- Pegue o cálice, beba o sangue menstrual! Anticristã sempre!
- Isso é muita dolor. Não deves negar o antepassado, os que sangraram por nós
entre os povos longínquos.
- Quero ser pedra, assim os outros terão certeza. Ninguém liga pra isso, somos todos uns ingratos! Sangro por tantos e os santos me ignoram.
- Preciso desligar essa conexão, meu eu imaginário. Repito. Preciso ir de encontro, precisamos lavar os dentes e a língua agora.
- Não seria ao encontro? Vá, serpente!
- Estarei indo agora e te espero dentro de meia hora na Gaiola.
- Por que assim sem mais? De lá aposto que terás outro compromisso e me usarás de passatempo óbvio.
- Estarei desligando e deixando todas as conexões ocupadas.
- Eu estarei omissa...
- O compromisso será contigo mesmo ou comigo. Quem somos nós?
- Não tenha dó, somos um bando de loucos a esmo nessa navalha cega.
- Está acabando o tempo, vai ocupar-se!
Vá e me espere, vou terminar meu testamento.
- Preciso de outra conexão, mas estarei hablando ainda.
- Duvido, vou.
- Está ficando rouco agora, longe...
- Não consigo mais te ouvir. Ocupada a linha...
- Nunca consegues me ouvir...

Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel

Transmutação - vida e morte

Uma lâmpada acendeu dentro de uma gaiola gigante
Dentro dela um pintor de quadros aprisionado com seu mais novo invento...
Uma bela obra feminina, experimento feito a partir de estopa e lona.
Acabara de criar uma múmia como tela de sua obra.
Num formato de mulher modelada Antenor dialoga com sua obra viva, apoiada apenas por uma mesa mal acabada e em cima dela cachaça dentro do copo fosco esquecido...

Copos de plástico, cartas, copas de ouro prata em carnaval de transmutação.
Rebusco um corpo bem cheio de alma.
Meu corpo plástico e compacto...
Escutei voz da fé guerreira enquanto meu corpo caía em pratos limpos.
Em meu pranto sujo a escoar, ecoando na caverna humana.
Flutuar... Beijarei anjos de pedras.
Além do barro oco de um cemitério armado.
Minha voz, meus cabelos, mãos, braços e pernas, tudo enfim se transformou em forma geométrica sintética.
É rouca enlouquecia em esquecimento semiótica minha alma.
Voz silenciada na lentidão da memória decrépita feito sol tarde demais muito depois do amanhecer.
Ainda bate aflito meu coração esmagado ao chão. Fragmentos de lágrimas pausadas no ar, na mente, no tempo...
Jogue flores no piso e feche a porta enquanto meus olhos caem em total ouvido!
Ouço um Fá sustenido...
É gemido sem dor azucrinando sonhos dormentes.
Nem brilho de lâmina polida cega o antigo cárcere do amor.
Vi uma estrela decadente.
Suada metamorfose, conseguida miragens fotogênicas em close.
Borboleta a sobrevoar uma Desert Rose. Barcos naufragados e aprisionados pelos corais de neurônios em conflito.
Verde-louro encantador, consumida e presa em teias de sonhos.
A mulher aranha fica de quatro em oito pés de altura.
Perpétuos toques nos tecidos tingidos a pólvora crua, riscada.
Um corpo em outros e o meu rosto em vários soltos por aí...
Máscaras intercruzadas feito cio de confrades,
em rodas a girar alma, controladores frios da calma.
Tantas vezes derretidas em tuas mãos
esta crisálida de vãos pertences,
derramada em cálices, embriagada de cachaça.
Antes de mim Oxalá, em mim deusa do mar Iemanjá me chamando pra girar no centro da circunferência riscada sobre a cruz.
Manjedoura em luz dourada.
Me arrisco girando, gargalhando enquanto meu corpo vai se preparando pra correr, Enquanto gira a pomba da paz.
Corra... E deixe para trás meu corpo transmutado em teu rosto transfigurado perdido na última idade trascedente.
Não somos mais dois?
Ainda sim, mas apenas um a mais.

Antenor se agarra a sua feminina obra, bebe o último gole da bebida, passa o braço sobre a boca esfregando o resto de bebida nos lábios, abre à gaiola arrastando sua obra e foge feito pássaro que acabara de fugir do cativeiro - Olhando para todos os lados sem saber direito que rumo irá tomar...

Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel

Mate-me, por favor!

Dolores encontra seu amante Antúrio numa praça.
Ambos estão sentados num banco enquanto os pombos comem migalhas de pão jogadas por Antúrio.
Dolores desabafa...

Eu me sinto um lixo, uma bagagem suja de mendigo desprezado, um saco preto nas costas. Um peso.
Cale-se nua Dolores, eu poderia estar morto agora! Sem conexão ou comunicação, restos de memória...
Não era para eu ter nascido, antes a inexistência que o desprezo universal consagrado. Devo minhas frustrações as frustrações maternais internas.
Cachorro fora de cena, animais tomando chuva ácida, eu pretenderia perceber minhas costas abertas...
Uterinas de ultimato: ou te mato ou te dôo ao mundo!
Sou uma menina estragada, sou comida violada por baratas famintas.
Correr para quem não tem parado nem pára-quedas. Somente sombras negras ao quadrado nas duas rodas metais avermelhados olhos de cor e pele escura.
E permaneci no ventre errado há vidas, há tempos mal-passados, um bife sangrando pela eternidade achando os outros, pelo trato, que é pão duro e seco não compartilhado. Não servi nem à fome dos ratos.
Achei que devia acreditar e acrescentar no meu álcool minha ultima dose de floral e beber o bem e o mal.
Fui uma sugestão ao acaso, que me acatou a renascida por mero caso insuspeito. Meu peito é líquido derramado a manchar o piso, o vazio do leito.
Não consegui correr porque não tinha pernas. De um revólver estampado dentro do quadrado desenhado poderia vir um estampido estancando vida. Talvez velas chorosas sentenciando um ser órfão faminto em plena encruzilhada.
Pior que a morte é o quase dela, detesto ser quase-isso, quase-aquilo. Ninguém consegue ser inteiro mesmo e isso é um perigo.
Aquela que me serve como mensageira, tais armaduras faíscam devolvendo a atmosfera minha desejada Áurea Boreal.
Por isso peço encarecida, humilde e tola feito um rio parado: mate-me, por favor!
Mate-me com uma colher enferrujada, com um taco de sinuca sujo de giz, com uma mangueira unida das fossas nasais ao cano de escape do carro.
Já te coloquei defronte a tua palidez; e que fizeste, a não ser desejar o medo de não querer me ver em ti ou em ti nunca mais me ver?
Mate-me sem delicadeza, sem dúvidas. Não deixarei cartas, não tenho laço de umbilicarnificismo com ninguém. De sentimerdalismo estou cansada, por isso calem minha boca tantas vezes mal falada!
Estuprem meus instintos mais virginais, minhas lembranças mais férteis. Matem-me ao virar a esquina com meus livros estudantis, matem-me na contra-mão atropelada. Empurrem-me da escada, joguem-me na fogueira de São João sem reza braba nenhuma e nenhuma tradição merecida.
Outra vez cara Dolores me pedindo o que não querias, mas sim em minhas entranhas a ofertar... Desejaria por ventura teu mais oblíquo desejo.
Matem-me e me enterrem com meus discos, com minha solidão regravada em ondas sonoras, tantas nas quais naveguei por horas altas de álcool ou não. Matem-me com bastante dor e de bastante medo, até eu ficar roxa de hematomas virais, até eu perder todos os dentes e os sisos que por ventura restam.
Deverias era parar perante minha retina. Veja novamente em íris naufragadas teu corpo em strip-tease. Não seríamos novamente um?
Como posso querer o teu querer se ainda devo caminhar, se ainda tenho de esperar a primeira lotação para o inferno e ainda ouvir teus reclames de pernas curtas? Só pro - longa - dores.
Arranquem minhas unhas, meu couro cabeludo. Deixem-me careca, deixem-me desfalecer como nasci! Maldita hora, maldita encarnação. Corpo hediondo.
Eu não consigo mais... Estou sem fala, sinto um engasgo horrível no meio do peito, do cigarro, do não temer e de querer crer no que carrego, nas crenças e descrenças utópicas.
Em nada mais acredito. Meus escritos serão deglutidos pelas traças. Olhos fechados. Vácuo e nada. Rest in peaces, rest in peace? Só os restos, ainda aos pedaços.
Em rebocos e tijolos talvez seja realmente o fim de uma tribo.
Entraremos logo em extinção, então porque a pressa e inúmeras preces? No final quem decide a minha é você, mas decidirei logo em breve a sua em mim refletido no chão sobre os pés do estranho.
Fim, fim, fim. Sem adeus, muda agora por debaixo da terra. Vermes, venham todos à mim! Façam um banquete com minha carcaça pálida! Assim, todos ficarão satisfeitos...
Deitarei e me lambuzarei de doces artificiais e vou me ver vagando no corpo do Mário Gomes enfurecido chutando cadeiras sobre a mesa, quebrando garrafas. Até tudo ficar desfocado... Até o fim da retina real.

Ouviram-se dois estampidos de revolver e o som de corpos caindo...
O dia está amanhecendo...
Uma luz radial envolve os dois corpos jogados ao chão - pombos comem milho ao redor dos corpos e um assobio perdido que acompanha uma musica chorosa.

Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel

Sétima vida encarnada

Em meio transeuntes um homem se agarra a uma mulher - se joga em seus pés e a pede ajuda.
As pessoas assustadas se afastam, outros olham o exagero continuando suas trajetórias...

- Carlota me ajude, por favor!
- Que foi, oi? Carlota? – aos risos
- Estou morrendo, estou sangrando, vontade de sumir.
- Espere homem, o que aconteceu?
- Tristeza que me invadiu sem me pedir, oras, e tem que acontecer?
- Não necessariamente... Mas deve ter um mote, a morte tem.
- Fiquei triste depois que falei com os velhos da garoa.
- Nostalgia, saudade... Vontade de voltar ao velho corpo? Não aceitas tu esse corpo novinho que te couberam terno fraco?
- Vontade gritar, de berrar, de sair correndo chorando, de encarcerar no inferno do esquecimento a mulher que se diz amar-me, de agarrar-me aos cabelos de uma árvore qualquer depois estrangular-me na nuvem passageira mais longínqua que avistar... Vontade de tudo que se espelhe e não reflita mais dolor!
- Isso já está ficando fugaz... Queria olhar no olho pra constatar...
- E ainda lhe conto mais... Vontade de soltar todos os fios dos meus cabelos no mar e navegar na areia calma sustentando meus ombros entre as pedras cálidas...
- Me poupe às metáforas estou desprezível esta manhã... Sabes o que é engordar da noite pro dia? Tenho uma fome infinita! Parece nunca mais parar...
- Eu quero a ponta da lança em minhas costelas pra fazer delas harpa.
- Queira zarpar!
- E ouvir de tuas pronúncias o soneto mais cálido e mais sincero de todas as noites de todos os Diem...
- CARPE!
- Ai! Parei! Chega! Cegueira ou areia nos olhos?
- Chegou aí? Soprei o cisco pra dentro dos teus abrolhos.
- Pó de vidro nos meus.
- Pó que mastiguei.
- Mas estou sentindo um sopro leve, que vem de longe, não sei bem de onde. Ai, meus santos reis! Esse corpo imundo... Me tira dele agora, arranca esses pelos!
- Sinto frio. Desde ontem, durmo sob cobertas grossas e sem brisas artificiais.
- Torna a mim outra vez menino!
- Não é mais tempo.
- Sei que a ampulheta já foi lançada em minha geração. Eu não sou daqui.
- É hora de soerguer-se homem e órfão de mãe que não precise. Mame nas tuas próprias inconfidências!
- Quero saber na pressa o que se consegue do outro lado dessa virgem vida.
- Suposta virgem, maldita!
- Eu me declaro marido e mulher.
- Do espelho? Eu que me maldigo papel em canetas, em nome do padrasto Deus!
- Pratico amor puramente cabra-cegas. Elas, só por puro prazer.
- Elas quem? Eu rasgo os papéis e chupo a tinta das escrevedeiras!
- Eu quebro penteadeiras e jogo ao primeiro mar de água cheia.
- Da tua banheira?
- Elas: meus espelhos, minhas meninas foscas que projeto. Importadas do submundo oco.
- Está quente o bafo no vidro, passe a flanela. Serás genitor de outras carnes?
- Eu sei que quanto mais tento tira-las do submundo mais minhas pernas são engolidas pela imensa areia movediça do vale sombrio de zumbis.
- Zombies? Valei-me Senhora dos outros! Agarre-se nos cipós, nas tiras dos vestidos das mortes filhas!
- Preciso urgentemente de clipes que dê nó.
- Que não seja cego!
- Quero deitar na balsa de olhos de espumas, constelações, boca de palhaço.
- E borrar as calças da boca?
- A cegueira iria me cair como uma farpa, a surdez como uma bomba nuclear.
- Retira-se com um alicate! Desmantelam-se os fios.
- Mas o tato que tanto aprecias seria devolver a terra. Devolvo-te todas as alianças que me pusera nos 40 dedos.
- O segredo é pisar nos castelos de areia, fazer desmoronar as princesas irreais e soberbas.
- Mesmo na vontade de lançar meus olhos de amêndoas no mar, não seria nada bom apreciar o flagelo.
- Dedos de galhos de planta rasgam as ondas do vermelho.
- Dedico meus dias de tarefas ao ópio invisível e os curtos momentos de prazer. Todos desprezíveis ao demônio que sai de retro.
- Eu fumo o teu vazio de significados!
- Quero fumar do teu fumo, sentir o segredo da tua ciência e transformá-la em paz. Dai-me esse prazer excêntrico, querida Carlotina!
- Todo prazer prolongado é engasgo, o que há é a busca incessante dele.
- São palavras não ditas.
- Porque não se tem... Se tem, morre de sede. O silêncio se prorroga porque não há resposta cabível e a saliva é grossa.
- Se seca o mar e as árvores, nem ar tenho, nem sede poderia sentir ao teu desprezo. O pescoço é curto e o colarinho me aperta sufocando a fala jamais dita.
- Tartarugas é que morrem na praia por caçadores humanos. Desprezo é a senha que abre a porta do medo. Tens medo agora?
- Eu no buraco das tartarugas famintas olhando uma imensidão azul que não se compara nem à milionésima parte do meu desamor.
- Meu caro pixote, o problema é que amas demais a quem te mergulha no enfado. Ovos letais, comidas de jacarés marítimos.
- Eu mesmo não tenho casco, já misturado entre frascos e fragmentos do meu eu humano.
- Arranquei o casco e caiu o fardo pesado, então deverias esticar o pescoço e andar mais rápido.
- Serei uma bela medusa, se me seduzires.
- Prefiro as tuas cobras.
- Melhor que venha com o pote cheio de água para matar a sede que tenho, tenho fome também.
- Venho com a concha armada. Eu tenho fome de pérola polida!
- Quero devorar todos os ócios.
- E os cios do neném que suga os dedos e se recolhe fetal, “cal”, “nal” fase que não sai...
- Todas as dores que sinto em ti, fechando e abrindo pétalas em pleno inverno.
- Pétalas são pálpebras, fio tênue de contato exterior. A luz até penetra fácil dentro de embriões servidos em cumbuca para os deuses. Somos sorvetes cor de rosa que os reis do divino sorvem.
- Um deus de saia que nem sei sentir sua honra.
- Ele sai de saias curtas e retira a honra de Maria deflorada, despetalada...
- Eu em prato raso já servido e digerido, depois salivado pelo engasgo.
- Um parto bem partido.
- Quero que me tire nova mente, um eterno aborto ressentido. Tire seus peitos da saliva.
- Papilas digestivas dilatadas, arregaladas defronte ao vento forte.
- Me engula em nome do pai!
- Forte? Fraco ímpeto. Pouco parti, ainda há pães sobre a mesa.
- A frota raquítica não tem alimento para a calma. Desmamados mamilos. Para cruéis, diálogos curtos... Vamos, me engula!
- Do desentendimento largo, acabe com minha gula.
- Me encaixe na concha e leve de uma vez entre teus lábios.
- Não doarei meu cálice na sobriedade escura.
- Deixe escorregar garganta adentro até teu ventre. Quero vida, mortes embrionárias!
- Eu me recuso a gerar um homem feito!
- Feito tu que é a careta certa da saudade.
- Quero que tenhas mais beleza.
- Uma linda esperança de antiquário.
- Desisto de paixão que mata os peixes, o belo é solitário sempre.
- Sempre contida dentro de teus aquários... Peixe flutuante sou.
- Melhor fingir que flutuar!
- Primata que reza a lenda...
- Lendas urbanas tecidas para o mar. Nenhuma fortaleza, sem forças.
- Gotas de suor sugadas pelo fardo defumado do teu querer.
- Não queres mais beber minha cara salgadora de carnes frias?
- Poros de sangue, teu olhar é imã. Eu suor do teu trabalho. Preciso imergir meu doce amuleto perdido no tempo.
- Não precisará mais de nada, senhor nadador.
- Sendo assim abrirei o zíper e jogarei amparos escritos...
- Pétalas cerradas.
- Já estão contidas nos punhos velhos de minha materna mulher.
- Galhos encerrados... Isso é doentio feito filho Édipo!
- Dolor-clonados, embriões descartáveis.
- Garrafas jogadas na poluição oceânica com mensagens desencontradas.
- Entornadas pelas serpentes. Serpentes essas devoradas pelos homens de fé.
- Ser pentes sobre penteadeiras (por) táteis.
- De perucas e cegueiras...
- De borras aquáticas.
- Entre os doentes decentes...
- Dentes podres.
- O querer bocejar, repetido ato do impulso alheio sobre doces de palmitos e descrenças de girinos.
- Sono das energias sugadas pelo palheiro, palha molhada que nem acende fogo. Mitos de Pal.
- Eu marcarei um encontro no meio do palheiro. Se aceitares, me encontre desbundado feito tolo que vê televisão a cabo.
- Dar cabo a quê agora, afinal? Sem sair de casa, viajo pelo mundo.
- De cabo a rabo, de casa em casa, feito gatos noturnos no cio, cães grudados pedindo atenção.
- Antes de perecer, eu grito, ganindo aos postes sem visão, nem te vê.
- Lambe-lambes expostas ao sol.
- Só luz de mercúrio cromo.
- Pra ver santo enganar cego.
- Somos. Mas quero ver cego esganar santo primeiro.
- Como somos? Cromo?
- Somos cores de Dalton!
- Batons marcados no espelho e esquecido nas mudanças bruscas dos tempos.
- Observados por milhões de câmeras espalhadas mundo a fora. Fora do ar. Batons de palhaço, genitália de cachorro triste.
- Dentro das cápsulas de anticoncepcional.
- Cápsulas dos foguetes. Entramos pelo ralo.
- Nossas vidas contidas em bulas de tarjas pretas rejeitadas pelos convincentes para virmos ao mundo.
- Me releve na leveza do sem-querer!
- O sorvete já derreteu. Mares já secaram e teus lábios se rasuram entre farpas.
- Jesus era menina...
- Menina eras tu, era eu, eram eles em vidas e vidas. Essa fora trocado em meio tanta gente gêmea.
- Eram os deuses argonautas? Argos igual ao da marca de fósforos?
- Fui bastarda leviana, hoje filho semi-rejeitado e na próxima nem sei...
- Da última, fui rei da Irlanda, assassinado pelo escudeiro amigo. Tiraram tudo de mim.
- A agonia toma conta do novo mundo ao lado da vigília nos anéis em Saturno, mas acredito que fui uma de suas mulheres amantes. Está tudo na santa guerra!
- Vida corrupta.
- Fui apedrejada e hoje tenho pedras no bolso.
- Deram-lhe o nome de minha Madalena! Hoje, enfiaria as pedras nos bolsos para me afogar mais fácil.
- Minha lembrança chorosa me faz recordar que não consegui te dar filhos.
- Estéril e histérica. A mulher esquecida da história forjada.
- Sim, fui abandonada pelo filho que não tive apedrejada por todos e tu amarrado observava minha morte chegar lentamente, a cada gota de sangue espirrado em teu rosto.
- Choro rola agora.
- Ranger de dentes...
- Fera ferida. Não, outra janela fora do padrão me foi aberta.
- Chuva de chuveiro, tu na roda dos ventos. Deixe a banda passar e fique a sussurrar sozinha a canção do perigo: você e a janela.
- "Ela e sua janela", da casa do Chico.
- Eu do outro lado reencarnando te vendo da minha TV a cabo. Mas aonde deixei o maldito controle remorso?

Um homem acorda do pesadelo e vê a televisão fora do ar em meio à madrugada.
Olha rapidamente para as horas, passa a mão no controle e desliga a TV virando para o lado e tapando seus olhos com um mascara de olhos.

Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel

Primitiva

Uma mulher chorosa ao dia de chuva andando em meio a uma estrada de quebrar mar em meios pensamentos ouve a própria voz falando enquanto cambaleia desordenadamente o corpo ao final da estrada que é cinza da névoa do temporal.
Entra em delírio vendo animais selvagens ao seu redor...

A voz é contínua.
Sussurrante...

Sumi feito um dente-de-leão ao léu do vento que esbate na cara de um tigre de bengala banguela com bafo de onça mal pintada na cara. Nada fiz a ninguém, a não ser a mim, isolada mente. Ilha com animais selvagens internos a devorar entranhas sensações.
Estranhas vísceras amarradas nas cobras sem veneno, víboras que mudam de pele pelo avesso. Aversão a elas, à versão das serpentes surdas-caladas dançando ao som do flautista encantador.
Canteiros de dor desabrochada são melhores cultivadores de selvagerias espinhentas. Assim eu me embruteço, não saio da jaula, não dou aula, não aprendo sem risco. Eis o sacrifício de viver: ter de entender o dia vindouro da rosa murcha sobre a lápide...
Sempre prisão, desde o etéreo, desde o útero, desde o berço, desde o quarto, desde a escola, desde o vilarejo, desde o trabalho do mundo em rotação até o corpo contrariado a ficar calvo feito embrião girino que vai de volta a terra, bebe água da chuva para ver brotar muda de planta na relva. Muda-se em silêncio e no escuro. Reaparece só depois de civilizado, adapta-se às regras, regas as matas, depois mata a elas. Nada mais, sociopatas sem opção:
pela humanidade extinta estreita e rasa.

Em foco uma rosa flutua sobre o mar seguindo a correnteza das águas até sumir em desfoque.

Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel

Em par feito

O velho palhaço está na frente do espelho retirando sua maquiagem com panos úmidos.
Enquanto seus olhos miram o espelho a ponto de se ver em seus próprios olhos lembra-se de seu grande amor Dora Alice que falecera á alguns anos.
Ela era uma grande bailarina de renome.
Seu Francisco passa a mão em sua cartola, veste seu terno branco, põe um disco debaixo do braço e sai assobiando em lembranças de Dora.
No caminho compra um buquê de rosas vermelhas - preferidas de Dora Alice.
Seu Francisco entra num grande cemitério e vai de encontro à lápide da mulher amada.
Ele coloca as flores ao lado do nome da mulher, faz uma reza acende uma vela e põe o disco do lado enquanto deita ao lado da lápide olhando para o céu - o sol até queima a lente do óculos de grau...


- Trouxe o disco que tanto lhe prometi meu anjo! Com dedicatória minha e assinatura do teu querido Gardel.

Aqui jaz a mulher que nunca beijarei. A cabrocha do meu barracão.

É com ardência em meu peito e nesse gole que trago as minhas ultimas palavras.

SILÊNCIO por cinco segundos...

O som da vitrola automática põe o disco e a agulha se posiciona para a música desejada, com todo aquele ruído de um disco desgastado pelo tempo.

- Estou tomando fôlego para poder te desprezar, querida Dora Alice.
- Não mexe muito na ferida, senão fico parecida contigo de novo.
- Só me fizestes mal nesses últimos 30 anos.
- Igualmente, querido.
- Como pudestes me amar apenas dois anos? Gostas do número par? Ele te cai bem?
- Ímparfeitos um para o outro!
- E o trinta... Não seria par?
- Três cabalísticos, mas sem cabimento... Como pude suportar tua dorzinha fétida de cachaça? Faça um quatro, por favor!
- Dividindo por dois o número é quinze, a soma do resultado é seis, mas quando se divide novamente por dois, o resultado é três, sempre.
- Numerologia à trois? Computaria trottoir... Não cale o trio, não engulo ângulos de nenhum jeito.
- Somos escalenos, retângulos ou isósceles? Que trilogia nos salvará? Hoje, querida Doris, só vim com as perguntas, pois esse tempo todo procurei uma resposta tua.
- Como prometido, entendo o combinário... Entenderias? Somos em linha reta, um círculo escalafobético enlaçando o infinito.
- Como posso estar para ti se não estás para mim e nem o outro entre nós dois?
- Não sabes ler as mãos pelo dorso? Elas pediram invisíveis no escuro, o peso aceso das tuas.
- Nem mesmo sei o que é o ridículo. Tua imagem calada é um santo de pedra.
- Fingiu que viu meus calos cálculos. Nunca disse que era santo, semi-deus! Tampouco santinha de oco pau!
- Calou-me as pálpebras e me pintou o rosto de talco.
- Vi-te arlequim barroco, lágrimas pintadas de improviso. As minhas foram atôrnitas, platéticas.
- Nos dias de lua cheia a luxúria e as lendas me arremessavam para dentro da floresta escura e úmida de joelhos em fervura.
- Sou humilde escudeira escusa disso.
- E o escorpião num brejo santo passeando sobre o espantalho...
- Há demônios disfarçados de sapos se dizendo príncipes.
- Belo espanto se é que sabes bem o desencanto.
- É fogo de palha o que espanta... Ex-planta, mal regada e sucumbida no milharal sem colheita para pipocas macumbais.
- Mas não seria o teu cordão que virá nos salvar da repetição fervorosa dos pagãos? Espanca meu brado fraco e me embarca nesse canto lírico de um fado surreal!
- Nosso fardo é o real indivisível, o meu uniforme é disforme verso.
- Mas não, as chagas de ancestrais juraram liberdade desde os matagais!
- Universo sem rima, sem vinha Láctea, terrenos baldios para almas rasas de lixo.
- Coragem, ó doce Dora Alice!
- Coração extraído feito vagem sem destino...
- E ainda vens me dizer que não te dei toda a minha sabedoria e alma? Carreguei-te nos carroções e me vi como uma besta de 7 cabeças segurando o bastão que te apoiara e jamais caíra.
- Não cobro, a cobra envenena a língua do pior no fim.
- Sacrifiquei-me e do suor fiz azeite e te dei o que comer.
- Carregas só o toco, mostra-me o dedo médio da mão réptil-camaleoa. Não me venha com falácias, eu que preparei teu alimento magro.
- Fiquei nu pra te ver vestida e de corpo chicoteado pelos magos da usura a me usar.
- Foi o inverso, brincas de mim, digas que não me és!
- Ex-tinta da uva na mancha colheita.
- Escondi-me, chorosa, na única gruta onde meti meu medo. Era eu que me encolhia, desatendia as chamas, ID oculta.
- Borraram meu paladar essas tuas insanidades! Vou indo e vindo sempre alheio aos provérbios bíblicos, acompanhando a linhagem dos ancestrais que nem sequer sabem que estou vivo.
- Meus pêsames! Desposarei a solidão curadora, sei até demais que estás vívido, mas isto é só a carne, não vês? Não sejas descortês comigo!
- Justo tu Doris, que és da minha linhagem e nem sequer sabes que em pecado nossos pares se amaram?
- Sustentaremos esse vício incestuoso com o quê? Como os nossos pães, feito nossos pais?
- Frutos do avesso se entrelaçaram e o que somos além de vassalos na sede do incesto?
- Um cesto de bicho, um resto de rabisco, um risco no gesto.
- A falta que me faz na relva e nessa fenda que ofusca meu olhar cinzento é meu querer e nada mais, minha veste de saco amarelado e esquecido...
- Uma gota de linha sobre o tecido marcado do corpo sanguerreado pela sutura, satura unido. Estamos machucados no íntimo, querido!
- Amarrados com as correntes escravizadas.
- Sim, feito ovos mal-chocados pelo cosmos!
- Agora lamentas?
- Somos cúmplices dos cuspes mal escarrados...
- Murmuras?
- Sempre, e sem soluçar!
- Choras de bruços para não ser deslumbrada?
- De barriga para cima, vazia do nosso filho único.
- Olhe para lua e deixe seus olhos engolirem todo o raio do desatino!
- Prefiro degustar a corrente do trovão, a Thor-menta elétrica na boca.
- Nessa utopia presa no teto do teu quarto, no copo derramado na sala...
- Não há lugar, nem tempo.
- Nem aspirinas que curem a batalha naval enferrujada.
- Nem sangue tetanoso a matar devagarzinho 2 olheiros à 1 cajadada.
- Quero meu canto... Entoar meu grito!
- Mastigo os teus estilhaços híbridos...
- Irei empobrecer deitado em teu cavalo de palha na boca.
- Corcel negro sem cabeça, cavalheiro pálido! Cavaleiro esquálido!
- Dou-te o ar da desgraça.
- Dou-te a graça da dor úmida e gratuita.
- No toque berrante da sétima trombeta com 2 chagas apontadas pra dentro dos teus olhos.
- Eu acato todos os infernos na pedra eclética dos sons astrais imprevisíveis, eu grito de repúdio ao teu ósculo, desinfeta!
- Pilares para os teus pés de asfalto.
- Derreto teu sapato alto, pois nos céus mais em baixo fincam.
- A gota d’água ferve e segue em frente.
- A delirante da lira.
- Sei, a de dentro da caixa de remédios...
- Tudo me incomoda de nada, nem sigo modas de fada sem conto, injeto teu sangue preto no ponto congênito.
- E saiu sorrindo teu embrião na amostra dos óculos de graus: faz calor faz frio.
- Miopira, pira de fogo, redunda mio sem meada, visão de um duplo: um fantasma fora do foco.
- Balde cheio da ferida, querida, um copo submerso na areia...
- Derramo na cara da calçada escaldante, sobe a fumaça de alívio.
- Minha última lembrança da morte presa entre meus dentes, na língua.
- Há um corte que divide o cérebro não à toa.
- Há uma vida que nos separa não por acaso.
- Tudo se divide, tudo esmaga minha razão em fuga... Foge comigo!
- Vira suco da cana que mói o corpo, tira alma. Ora, fique consigo!
- Chupo o bagaço, bebo a caixa, assa branca.
- Vou fechar a tampa para calar.
- Dê a descarga, não vá olvidar!
- Raspar para escapar, abrir para te achar, entrar sem te falar, empurrar para te ver gritar, tirar para te ver chorar.
- Rasgo as unhas nos teus dentes a sorrir. Isso é viver já vi, mas ver... Crer é cego perigo.
- Quero mais outras vidas, mais e mais, a mais do que a menos. Vou colocar o cadeado na tampa, agora as socorre da morte certa.
- O quê? Eu arrombo!
- Vou escrever teu nome Dora ou devo te apelidar de Doris?
- Ardores a mim em mil maneiras.
- Escreverei conforme o espaço me permita
- Nome não é coisa de cofres, Antenor!
- Então te deito em paz e te sepulto Doris DorAlice!
- Segredas as palavras sãs, porque já sou morta-viva.
- E serás conhecida como binário.
- Antes um que zero à sinistra, que mal desperta para viagens eternais.
- Para todo o sempre, amém, querida!
- Amem a dores permaneço vítrea.
- Teu baú jogado ao mar me dizendo adeus em mar de flores vermelhas tingidas de sangue.
- Adeus nunca, ao diabo!
- Meu nome Antenor não te atende mais.
- Tarde já vais, ignora tua Dora dor. Antenas sem fio dão cabo à nossa paz... Mas descanse nela!
- Prometerei me equilibrar nela para não te dar choque em demasias.
- Equilibristas costumam cair no cio da navalha... Serei a bêbada, prefiro.

Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel

Desencontro






















- Está elétrico, peixinho?
- Num engasgo, vendo trem da morte...
- Não se suicide, não saia do aquário!
- Meus braços dobrados com a camisa de botão.
- Bruuummmmmm brummmmmm...
- Bruma. Eu quero a bruma bem no meio do peito.
- Uma flor, toma!
- Enfia um cordão no espinho, dá um nó e depois dó tenha.
- Eu não, é aveludado, sabes... Só a carapaça que é dura para proteger de todos os males.
- É de luto, não mais um ser enterrado. Baínha de calça descosturada...
- Enterra para aflorar, a calça se costura.
- No santo cálice desejando a deusa Lola!
- Amém, amem-se mais, caros nenéns!
- Embriões embriagados. Suspensas flutuantes espumas...
- Ontem abri uns livros espirituais ao léu. E o q dizia? Dizia para amarmos uns aos outros, repetidas vezes.
- Amarei num mausoléu a tua estatueta.
- Pode quebrar, o santo é de barro, mas o sopro eterniza. Mau sol eu.
- E tu de calças ao joelho desejando um rei em corredores maio.
- Dobro meus joelhos se four preciso de antemão pacificar os corredores Auschwitz!
- É 3 de ímpar que soul, se soulbesse deitarias na concha.Onde ficaram teus olhos?
- Abertos por dentro.
- Em 3 dias olhos mudos sem me ver.
- Já faz 3 dias que não nos reconhecemos pelas vistas?! Tempo demais, já dava para envelhecer.
- Nem pelas revistas...
- Coleciono revistas velhas para fazer recortes.
- Rústica pele sem pelos, alva e pálida.
- Fiz uma plástica nas artes, sem rugas, nem rasgos.

(...)

- Couro d’água ouve o nobre carcará...
- E a chuva vira nuvem no Oxalá da manhã.
- Minhas leves mãos levianas te chamam ao bater do tambor.
- E minha dor te espera no avesso desse lamaçal.
- A gira me seduz e as luzes, em câmara de fumaça, arrebatam e me põem de joelhos na frente de ti.
- Leve-me para a leveza das vezes boas de nós!
- Vai jogar em meu rosto o arroz que ofertei?
- Sem cerimônias! Casamento só de almas (famintas)!
- Depois vai virar a nuca pros meus olhos e beber mais um gole da aguardente?
- Tudo reflexo, o que pedes vem.
- Jogue os búzios para o céu e me veja ao caírem todas as pedras no chão.
- Minhas mãos espalmadas a serem lidas pelo universo.
- Tranque as portas do teu terreiro e me expulse outra vez da tua umbanda!
- Dirão para correr sem sair de ti e cansar no descanso da paciência.
- Mate-me a sede e me deixe enrolado por uma cobra em tua estaca.
- Havias me expulsado bem antes, espírito benfazejo.
- Merecido, mas para que jogar na cara o batismo de sangue?
- Se não fosse pela ruína não estaríamos ajoelhados juntos, catando cacos de promessas.
- Nem se quer lembras das flechas que ainda estão contidas em meu corpo para te proteger e me deixastes sangrando no caminho achando que não haveria mais vida.
- Sangrei bem diante de ti, mas havias perdido meus olhos antes. Então, tomei o cálice da atitude, pois a espera amargava.
- Num desespero abrirei todos os meus botões e jamais esquecerá as janelas quebradas que ficaram dentro de mim.
- É preciso enxergar além da cegueira, além da cerca posta à prova de fogo na roupa suja.
- Quer que eu tire mais um pente para adorar teus cabelos, ó amante Lola?
- Calamos sempre, gracejamos de enfeite, mas está lá o todo.
- Talvez um espelho de moldura alaranjada jogasse no interior do teu avô, onde lá eu estava deitado junto aos cavalos. Queres ainda todo o pelo do meu corpo para poder nascer novamente? E ainda abrir o saco contendo teus cabelos e lâminas cegas arremessadas vento à fora da janela 23?
- Avôs todos mortos, o passado me pôs citadina sentada à janela em frente. Quero calvo o Calvino condenado pelo papa hodierno. Hoje vivemos uma inquisição velada, acendamos a vela para Freud Flintstone! Já o 23 dá igual à meia dúzia de ovos cósmicos. Multiplicação dos pães em bife dos olhos grandes.
- Isso é mais que a baba engolida na semana anterior...
- São duíche, ave!
- E meu semblante, amora minha?
- Ressaca de alma do mar não correspondido.
- Visões de areia: mulheres nuas.
- Lês sóis malditos.
- E no mar têm encruzilhadas?
- Têm oferendas e santas bonitas, sereias em beiras...
- Na tua boca só vejo arder a água.
- É a chama do paraíso, um belo canto.
- Tiras o gosto da minha língua?
- Não sorvamos mais o sal, há mares de água doce!
- Dentes fortes... Merecias um osso.
- Cachorros: amigos melhores.
- Na trepada indomada do cio.
- Intumescidos na inconsciência, cavoucam na areia e acham tesouro.
- Amuleto guardado em baú rasurado de Pandora, Dora Alice.
- Douras minha pele, ó peixe sagrado!
- Trazes na teia segredos do universo, exalas o cheiro do cimento.
- Arca com as conseqüências de um Noé descabido. És asfalto trêmulo, oásis hiperativo.
- Bonito és tu dentro da gaiola, pois canta com disciplina.
- Ciumento endurecido, não pise a grama: 21 gramas pesas, pássaro meu, condor sem vício.
- 42 graus de bico dourado, observado pelo binóculo do vizinho desnudo.
- Lança teu vôo mais numeroso em batimentos aso-cardíacos, grande irmão olheiro deus que vê a tudo!
- Servirei na tigela tuas asas de azar se sobrarem.
- Sorte conheço, de sobras abasteço o meu canil interno e uma geração faminta. Não falhes comigo, silêncio horrível!
- É de desprezo e de mal cheiro dito do ser televisivo.
- Cheiram cola, colam os filhos na TV, matam a fome do destino.
- Numa foto montado em mim um grito fino me assusta. Do desprezo estou já me sentindo preso.
- Lambe-lambe, corre-corre, pequeno princípio!
- Cuidado de mim, num planeta perdido...
- Cuido de ti feito a mãecianita. É bem ali, na arrotação da terra, que está o alimento de espírito.
- Queria uma asa delta para poder sair daqui! Ajude-me a desprezar esse planeta minúsculo, pois sou um nômade sem nome requerido.
- Não podemos enquanto presas terrenas neste corpo roto, aonde formos continuaremos nuas formas do deus escolhido...
- Então sugeres uma morte?
- Não, sugiro a eternidade. Utilizaremos este invólucro carnal até o final dos tempos. Quando murcharmos nossos canteiros, anjos cantarão. Temos de utilizá-los nas feituras, assimilarmos as feiúras porque merecemos o mal se o assim o fazemos.
- Meu silêncio te cala, mas meu pedido seria uma desordem.
- Anarquia legítima, calos do universal!
- Todo o sentido da imortalidade seria banalizado em frações de segundos desejados.
- Quando não, veremos.
- Apaguemos as velas. Vamos DORmir.
- Velarei teu sono. HARIBOL!
- Isso ameniza o amém antes da dita.
- Até lá, te vejo naquele sonho!
- Uma bola de sabão com meus sonhos infinitos... Besos, Doris!

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Escrito em vermelho por: Paola Benevides
Ilustração e Texto em cinza by: Harley Maquiavel
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Alfazemas Lunares






















“Alimento-me de saudade quando
minha alma começa a recordar…”.


Estrada no meio do nada
Uma luz apenas no final da escuridão
Eu um homem desorientado e mudo
Pintando o meu melhor quadro
No canto da bendita luz um casebre abandonado
Eu ouvira prantos de pessoas desesperadas
Cheguei mais perto e observei que era uma jovem moça
Deitada numa cama sem colchão
Senti seu corpo frio
Era dela que vinha o meu pavor
Eu perguntei a mãe que soluçava em prantos,
mas não podia me ouvir.
Ninguém me via ou ouvia
Mas conseguia ver todos
Decidi não atrapalhar, pois a menina havia falecido.
Era um enterro.
Ao dar as costas para abrir a porta,
ouvi uma voz passiva que me acalmou:
- Fique!
Voltei inesperadamente e abracei com toda a felicidade
de ter presenciado um milagre.
Ela estava viva enfim…
Mas não entendia porque todos continuavam em oração fervorosa
e de lágrimas nos olhos
Meus olhos giraram sobre todos as pessoas, objetos e luzes
e fixou em seus lábios ressecados.
Eles ablaram em meu ouvido e suas mãos sufocavam
minhas costas congelando meu corpo
Estava morta e a certeza me apavorava ainda mais
Me expulsei do braço da morte e com mãos trêmulas
tentava acender um cigarro
Ela tomou dentre meus dedos o maldito calmante fumaçante,
acendeu e baforou em meu rosto como uma vadia.
Estava certo que ela não teria mais do que 15 anos
Mas me olhava como um canibal, me seduzia
passando sua língua pálida nos meus lábios violeta.
Ela me queria naquele caixão e com todos à volta em oração
e dor sendo desejada na luxúria de nosso ato
Era virgem, olho cor de criptonita.
Pele alva, unhas grandes e o cabelo queimado
como a escarlata do céu no fim de tarde.
Sua língua de cobra partida ao meio me chamava, hipnótica
Era quase uma medusa, já me sentia uma enorme pedra de sal.
O cheiro da alfazema lunar me atraia.
Me traí sendo jogado ao caixão e a insanidade
tomara conta de todo meu corpo
Me embriagava de tal forma
que me entreguei aos braços de Morpheus.
Quando acordei estava amarrado numa cruz alta de olhos para o céu
Tudo negro e estrelado, me sentia no espaço em órbita amarrado
numa cruz e esquecido pela Terra mãe gentil.
Depois de recobrar meus sentidos vi seu corpo derramado
aos pés da cruz e sua voz rouca e pouca me apavorava:
-Chegou a hora que sempre esperei!
Ela me usava, gritava, sentia dor.
Me rabiscava inteiro com seu canivete
Eu chorava de dor, não entendia como ela gritava ao me cortar
O clímax tomou conta do ser dominante
me mordendo os lábios até sangrar
Se embriagou passando a língua em meus cortes
e me prometeu ofertar meu coração ao senhor da morte
para se eternizar o decreto.
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O quadro que eu acabara de pintar despencou do cavalete.
Eu tentava sair de dentro dele, gritava,
espancava de fora pra dentro. Ela apenas sorria.


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Texto e Ilustração by: Harley Maquiavel

Até a outra parada!























Foi tremenda falta de educação o desespero de sumir,
o desassossego de reconhecer a falta de si no abandono alheio,
mas não tive outra opção: seguir caminhando. Rompido o mutismo,
o que virá restante? Um abraço dado primeiro. Trabalhemos juntos o ócio. Loucura é o pior recreio. Receio a falta de chuva por tudo que de madrugada desceu dos meus olhos. Eles já disseram muito.
Estou exausta, não importa. Até a outra parada!


- Quem vai se depedir que seja breve, estamos de partida!

Querida Marcianita ta tudo consumado no consumo do querer,
do desprazer desprezando um desejo mutuo. A lágrima sempre cai bem nos olhos. Ja tenho marca no rosto pra deixar escorrer até a boca e sentir o gosto do sal que arde e ferve corte exposto. realmente não sou mais como antigamente, mas continuo contido nesse frasco icabível, inacabado.

- Atenção passageiros, neste roteiro não há parada nem regresso. Tenham todos uma boa jornada!

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Ilustração e texto em cinza by Harley Maquiavel
Texto em VERMELHO por: Paola Benevides
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Maquiável






















Eles tiveram nojo do meu ácido ao beijarem a linguaruda. Só o que fiz foi ficar sentada no silêncio a esperar captar qualquer som Divine. Que não existe, já sei que nem existe! Sou mesmo uma carranca absurda, afasto almas depenadas, mastigo-lhes a carne mal passada de gente, dou baforadas de cigarro no nariz do ouvido. Macumba; pisei na vazilha, comi farofa de encruzilhada. Meu pé está arrebentado de andar tanto ontem com um namorado que nem era seu, seria? Terminados, nenhum compromisso. Comprimidos pelo complô do espaço. Mutante a me apelidar de Marcianita. Ele introjetou seu desejo em tudo de mim, desvenuseado a trocar camisa. Contou sua história, abriu diário, bebeu minha agonia com cheiro de cachaça amarga derramada em sua mochila. Oferecemos bebida a uma douda transeunte sem causa. Chamava Ana, cantamos para ela Um Refrão de Bolero (”…seus lábios são labiritos, Ana/ que atraem os meus instintos mais sacanas…”) Perdi meus óculos e minha miopia. Fui ler Pessoa para o vento na beira da praia,
Poema em linha reta, quando meu mais novo desnamorado adormeceu. Eu não podia. Cansei de escusar a alheia poesia, agora rezo um credo meu, sem pai do céu azul escarlate. Doença escarlatina. Quase fomos presos ontem à madrugada na reitoria, quase morri, três guardas. Mentiras, safas mentiras. Forjamos identidade na palavra. Parecia o fim do mundo quando eu ria. Engoli um choro perverso, amanhecendo o dia. Queria só mais um gozo profético, quando o efeito melancoólico ultra-passeou e nós nos recolhemos dentro das cascas dos ônibus. Dois vadios sujos a olhar criança indo pra escola, gente outra ao trabalho e eu isso dando. Evitem me amar, artistas, eu não mereço um terço rezado, um gato enterrado vivo, nem um banho tomado! Fui dormir imunda na falta d’água. Moro em prédio amarelo e baixo, de nome Exupery escrito. O autor do pequeno príncipe. Antes fosse um Príncipe máximo do seu Maquiavel Nicolau! Mas preciso maquiar agora minha imagem do REAL

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Ilustração by Harley Maquiavel
(D)escrito por: Paola Benevides

CONVERSÃO


- Vou descrever a cena mais pesada que já escrevi na vida escarlata da boca que fere meu inconsciente:

Debruça meus medos e a certeza de que a vida é curta e nenhuma roupa lhe serve quando não vale migalhas, nem farrapos, nem mesmo sendo traído e abandonado por satanás.

- Vi meia face dele naquele dia, parece que ninguém o via… Depois sonhei que ganhava um tiro bem no miolo das costas. Acordei toda quebrada!
- Com um rosto choroso e peneirado, corpo moído e estancado, vi naquele olhar refletido na faca uma cegueira.
- Espelhei a cega alheia, aquela que cortava os punhos do medo e que me fez caminhar sozinha, embora, atrás de um lar… Já imaginou Narciso se olhando no espelho lodoso do riacho Pajeú?
- Um canto descrente na cegueira das horas na surdes das palavras tortas, nos pensamentos esculpidos em pedra lascada.
- Foi a melhor oração, aquela.
- Teu nome dor e o meu abandono.
- Choveu torpor desde ontem. Por pouco acreditei em nossa palavra: ‘não, jamais te abandonaria aqui’…
- Mas esqueci de tomar o rumo do barco e rever a verdade nesse lago barrento, me achei sujo, nu e deu vontade de correr.
- Corri para não morrer.
- Despertou em mim um ponteiro de relógio atrasado, segurei os pinos no olhar descrente dos poetas sucumbidos.
- Caíram parafusos enferrujados do canto dos olhos.
- Vi-me empoeirado ali no meio das pedras quadradas onde se habita lá… Desculpa perdão, meu pedaço de chão.
- Desculpedaçado!
- É que me deixei saquear por um pedaço de ti, de pão…
- O de açúcar que se fez fel. Mas quando um dia chorares, terá o meu abraço.
- Um abraço do mais dolorido espinho?
- Não, um abraço da mais veludosa pétala.
- Que espanca meu rosto nos dias de fúria! Que me alimenta e mata-me de lucidez enrustido na vela que acende e apaga.
- Nem confunda as cores. Preto no branco, então:

Todos sangram na noite. Uns mais fúteis que outros, mais alguns inúteis… Como julgar? É o barco da fuga que fura e vira quando se quer embarcar. Bebe-se o sal na folia como um sol aflorado que afoga no ar. A chama que ninguém quer fumar é o avesso do cigarro pós-ócio-sexo. Dormem todos os corpos insaciados, viram-se os copos ébrios. Todas as portas fechadas, e o desespero aberto, peito aberto às flechas do acaso. Frestas negras. E o que ocorre ao mundo agora enquanto o sangue escorre? Correm, correm sem direção. Escorrem minhas lágrimas.
Eu me ponho inerte.


- Merda!
- Sorte!
- Escroto pé na cova da galinha…
- Clarice tinha uma chamada Laura.
- Pesadelo aos que podem ver asas negras em minhas costas amordaçadas na encruzilhada da navalha cega.
- Quando criança, ela tinha uma, sua melhor amiga. Um dia a fizeram para o almoço e a morte serviu como alimento.
- Amordaça minha boca com o laço da ternura, deixe-me falar esse som de cantiga muda. Meus dentes estremecidos na ferrugem do esquecimento alimentado satisfeito, endurecido e pensativo estorvo.
- Não… Jejuara.
- Passa 40 dias e 40 noites a caminhar em oração fervorosa!
- Aficcionada pela realidade.
- Chorava a lágrima que corria da vela em suas mãos de abraços, beijos de púrpuras escorrendo carrossel de suas costas e a montanha russa em seus seios.
- Era só uma menina cambaleante entre a pureza e a agrura At Place Called Vertigo, Vertigente.
- Queria cheirar pepinos, pentear couve flor e lhe por grampos…
- GRAMPEA-DOR!
- Esquivando-se do suor lento de cada furor. Lentilhas e estilhaço no bagaço da cana. Boca doce-amarga escarlata.
- E a febre percorrendo alta.
- Naquela noite encontrara outra cara. Cara de si no outro…
- Ou no nada!
- Outro em si, está na cara! Quero chorar, quero abrir meu peito agora.
- Pode, sempre sou toda ouvidossonora.
- Escandalizar o ébrio solto preso aqui dentro de mim de ti de nós.
- Fazes só o bem.
- Mas me liberte dessas correntes e me queira bem, mesmo que o cuspe que escorre do teu rosto seja o meu que se jogou de um trampolim.
- Perdôo com Gandhi a dor sem fim.
- Vou despertar, já é hora de se despedir dos sonhos, este sonho acaba por aqui.
- À meia-noite?
- Eu que controlo meus eus, deus, sou seus!
- Somos bastantes!
- Bastardos de pai e mãe…
- E filha e mascote.
- Atrasado quase sempre, o tempo todo inconstante, mascoteando o vagabundo, charutando poesia penosa atrás de qualquer alarde… Um incendiário!
- Tens uma meta: morfose costumaz.
- Fugaz.
- Empty fool of gas.
- Acabou o gás e apagou a cozinha.
- Mete fogo!
- Derreteu a geladeira e a despensa virou pó.
- Perdi o isqueiro do querer Zen, como acenderei meu incenso de jaz mim?
- Estou me vendo virar uma traça, todos os nervos contraídos a fim de respirar, libertar, tracejar…
- Rabisca a centelha com pólvora!
- Daqui salvador, dali outro mordomo.
- Traça que domo sem amor nem morta dentro do livro não lido que não quis cá ficar… Mata morfose, meta barata.
- No bolso do palhaço e morra, ria, cuspa e mije, no balde da Mafalda.
- Paixão segundo ela a comungar com o inseto barato.
- No cru que faz buá. Daqui, chutes para o mar. A lua que condene a descrença desse ópio!
- Não poluas, tu não bóias, nem fume o luar!
- Apagarei o sol num sopro berrante de búfalos que dominam o mundo dominado.
- O bufão a esta hora se diverte no circo inanimado cheio de anões paralíticos.
- Apenas dolor, pernas, calor, Color… Abajur no asfalto morno.
- Cor de carne crua em meio à rua com seus alarmes.
- Anotações que perdi de graça em graça.
- Sentados no banco sem pressa nem praça.
- Olhar colírico.
- Porque nada se vê quando se está com o outro.
- Fosco brilho, nada de outro se vê em si!
- Vê-se o contrário, a soma dos iguais.
- De ponta cabeça, quebrando cabeça.
- Bicho de 7 esquadros
- Montando alfazemas, eqüilátero…
- A extrair algemas da clara dos ovos Gósmicos.
- Prato fundo rasgo pra servir um engasgo.
- Traqueostomia feita a dedos na ferida garganta profunda…
- Que borra o tecido pálido, dá vida doando gotas de sangue, choroso orvalho triste.
- Fica estreito?
- Estéril. Sintoniza e mexe no emaranhado do cabelo…
- Amplificado!
- Estrela histérica simplificada ao quadrado da raiz de mim.
- Vênus de milus.
- Extração, contraditório enfado do peso da rede em suas costas.
- Embalado em meio aos peixes, pisciando tudo em volta, cheirando alto. Isca de feixes, elos de correnteza solta…
- Abortadas, embaladas em turvo mar. Aquarelas em lodo rouco.
- Ninguém carrega o fardo-filho do outro sem amar.
- Que seriam serpentes do mar engolidas pela isca de Marcianita?
- Marcianita volátil com cor de criptonita!
- Meu decadente poder, fúria presa na pupila do oráculo.
- Estrelas cadentes são mais prósperas, lágrimas acesas no céu dos riscos.
- Preciso do tempo, respirar, inspirar…
- Dou-te bebedeira com água da minha solidão.
- E depois me cobrar com o preço dela, pagamento do desprezo preso, contido na garganta?
- Papéis desprezados pelo poeta descrente.
- Vou deixar meu corpo quebrar nas pedras.
- Papéis arranjados ao ator demitido pela gente, as pedras cantam leveza.
- Diretores ocupados e câmeras trêmulas de um ébrio descoordenado.
- Aplausos à liberdade presa ao mar, coral, enfeite no senso…
- De peso em pescoço do velho capitão do mar.
- “O Velho e o mar”, de Hemingway and “The captain of her heart” dos anos 80… Engula o final no copo da lembrança: um brinde ao marasmo mútuo!
- E o fim começa aqui.
- E assim termina a eternidade…

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Em cinza escrito por: Harley Maquiavel
Texto em vermelho e ilustração por: Paola Benevides
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Outros ócios da idade XX























“Um dia lhe levarei ao refúgio das mariposas”

Conto os segundos que me restam num relógio medieval
O tempo é inimigo do meu ser imaginário
Um grande e feroz bicho que de mim brota
Sou parte do meu subconsciente
Sou filho do submundo
Amador e sublime pagador
Posso lamber os meus braços
Sentir meu corpo amargo
Cuspir em qualquer dia
E sentir o gosto da derrota
Posso ser eu mesmo
Brincar de ser uma fantasia idiota
Mas não sou mais o mesmo
Meu corpo é áspero e o teu marcado
Ame seu homem
Eu sou o homem
Eu sou o meu homem
Estou apaixonado por esse cara
Não seria eu o tal Narciso?
Ampulheta da vida, quanto mais eu vejo
Mas o Deus dos gentios me observa
Sentado aqui numa janela quebrada
Ébrio e sonolento
Espero Ícaro me salvar
Conservo o gelo no meu corpo.

O vento forte seca a testa suada
O pavor de ser um simples plebeu
A mão massacrada de tanto escrever nos muros:


“Abaixo a perfeição que não existe mais, nem nunca existiu!”

É chegada a hora
Vou desistir
Você vai sorrir e assistir meu corpo cair no mar
E quando todos pensarem que morri
O grande Ícaro vai me levar para “cagar” em cima da lua
E junto brindaremos e apagaremos o sol
com o sopro leve dos arcanjos...
Morri e nem sei quando foi meu último momento.

mãe pai filho onde agora miserável mundo conturbado hilário
inseto lágrima meio de tristeza meio do amor tristeza
feiura beleza contentamento lotação tosqueira luar constelação
clarão problemático coxas pigmeu derrotada impressão exposição
expressão tudo é forma deformar informação.


Caminhando só a caminho do sol
Da pra ver que você não anda muito bem...
Fotografei você outra vez

- Fumante bastardo!

Só pra tentar esquecer
Insisti no erro, no cheiro das horas
No teu meu maior defeito
E o vento insiste em querer atrapalhar
Pra te segurar um tiro feio foi
E me feri alojando festim nas pupilas
pra não ver beleza no eu feio fora de mim...

Vai nascer aurora
Agora vá embora
Eu não resisto ao teus apelos
Quando choras me odiando
Tenho vontade de gritar
De não mais viver

-Rasgue todos os papéis de seda, meu amor!

Jogue na roda dos ventos
A cocaína que você deixou


Suaves são teus toques diante da tua perdição
Anjos, diabos e escravo fantasma do teu amor
Tenho vontade de te matar
De arrancar teu coração e entregar como sacrifício
Pra qualquer Deus que me deixe em paz.

Quero beijar minha boca sem que ninguém perceba
Que estou sendo beijado
Estou me amando
Apaixonado pelo meu corpo que cai em contradição
Toda vez que vejo no espelho a luz dos olhos tristes
São meus eu sei, jamais serão seus
Espero a chuva chegar, a bruma me acalmar
A torre cair... o apocalipse se cumprir
Quero viajar nos anéis
sem o tal do saturno pra me atrapalhar
Pegar uma bicicleta chinesa e me fazer de louco
Ir de encontro ao Santa Claus

- Quão miserável é o meu querer!

A dor é a esperança de uma vida breve
A vida é uma sorte enrustida que só se consegue uma vez
A morte é um passo para paz
Descanse em paz
Liberte-se de todas as algemas de dor e de perdições
Pois quando se quebra uma vidraça
Uma alma chora de culpa
Por ter sido covarde.


Basta senhor do teu potente braço
Role através dos astros e estrelas
Perdão para os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito
Escuta o brado meu “lá” no infinito

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Ilustrado e Escrito por: Harley Maquiavel

Mini Com Ciência

Quando vi estava desfigurado, choroso.
Encolhida mola dissonante.
O contato era o tato um tanto tardio
e óbvio demais para quem se perdeu. Deixou padecer.
Fiquei sem paradeiro de mente abandonada pelo próprio espelho.
Todos os presentes riram do ser desfigurado em pranto.
Ele acabara de nascer.


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Ilustrado e em cinza escrito por: Harley Maquiavel
Em Vermelho por: Paola Benevides