O velho palhaço está na frente do espelho retirando sua maquiagem com panos úmidos.
Enquanto seus olhos miram o espelho a ponto de se ver em seus próprios olhos lembra-se de seu grande amor Dora Alice que falecera á alguns anos.
Ela era uma grande bailarina de renome.
Seu Francisco passa a mão em sua cartola, veste seu terno branco, põe um disco debaixo do braço e sai assobiando em lembranças de Dora.
No caminho compra um buquê de rosas vermelhas - preferidas de Dora Alice.
Seu Francisco entra num grande cemitério e vai de encontro à lápide da mulher amada.
Ele coloca as flores ao lado do nome da mulher, faz uma reza acende uma vela e põe o disco do lado enquanto deita ao lado da lápide olhando para o céu - o sol até queima a lente do óculos de grau...
- Trouxe o disco que tanto lhe prometi meu anjo! Com dedicatória minha e assinatura do teu querido Gardel.
Aqui jaz a mulher que nunca beijarei. A cabrocha do meu barracão.
É com ardência em meu peito e nesse gole que trago as minhas ultimas palavras.
SILÊNCIO por cinco segundos...
O som da vitrola automática põe o disco e a agulha se posiciona para a música desejada, com todo aquele ruído de um disco desgastado pelo tempo.
- Estou tomando fôlego para poder te desprezar, querida Dora Alice.
- Não mexe muito na ferida, senão fico parecida contigo de novo.
- Só me fizestes mal nesses últimos 30 anos.
- Igualmente, querido.
- Como pudestes me amar apenas dois anos? Gostas do número par? Ele te cai bem?
- Ímparfeitos um para o outro!
- E o trinta... Não seria par?
- Três cabalísticos, mas sem cabimento... Como pude suportar tua dorzinha fétida de cachaça? Faça um quatro, por favor!
- Dividindo por dois o número é quinze, a soma do resultado é seis, mas quando se divide novamente por dois, o resultado é três, sempre.
- Numerologia à trois? Computaria trottoir... Não cale o trio, não engulo ângulos de nenhum jeito.
- Somos escalenos, retângulos ou isósceles? Que trilogia nos salvará? Hoje, querida Doris, só vim com as perguntas, pois esse tempo todo procurei uma resposta tua.
- Como prometido, entendo o combinário... Entenderias? Somos em linha reta, um círculo escalafobético enlaçando o infinito.
- Como posso estar para ti se não estás para mim e nem o outro entre nós dois?
- Não sabes ler as mãos pelo dorso? Elas pediram invisíveis no escuro, o peso aceso das tuas.
- Nem mesmo sei o que é o ridículo. Tua imagem calada é um santo de pedra.
- Fingiu que viu meus calos cálculos. Nunca disse que era santo, semi-deus! Tampouco santinha de oco pau!
- Calou-me as pálpebras e me pintou o rosto de talco.
- Vi-te arlequim barroco, lágrimas pintadas de improviso. As minhas foram atôrnitas, platéticas.
- Nos dias de lua cheia a luxúria e as lendas me arremessavam para dentro da floresta escura e úmida de joelhos em fervura.
- Sou humilde escudeira escusa disso.
- E o escorpião num brejo santo passeando sobre o espantalho...
- Há demônios disfarçados de sapos se dizendo príncipes.
- Belo espanto se é que sabes bem o desencanto.
- É fogo de palha o que espanta... Ex-planta, mal regada e sucumbida no milharal sem colheita para pipocas macumbais.
- Mas não seria o teu cordão que virá nos salvar da repetição fervorosa dos pagãos? Espanca meu brado fraco e me embarca nesse canto lírico de um fado surreal!
- Nosso fardo é o real indivisível, o meu uniforme é disforme verso.
- Mas não, as chagas de ancestrais juraram liberdade desde os matagais!
- Universo sem rima, sem vinha Láctea, terrenos baldios para almas rasas de lixo.
- Coragem, ó doce Dora Alice!
- Coração extraído feito vagem sem destino...
- E ainda vens me dizer que não te dei toda a minha sabedoria e alma? Carreguei-te nos carroções e me vi como uma besta de 7 cabeças segurando o bastão que te apoiara e jamais caíra.
- Não cobro, a cobra envenena a língua do pior no fim.
- Sacrifiquei-me e do suor fiz azeite e te dei o que comer.
- Carregas só o toco, mostra-me o dedo médio da mão réptil-camaleoa. Não me venha com falácias, eu que preparei teu alimento magro.
- Fiquei nu pra te ver vestida e de corpo chicoteado pelos magos da usura a me usar.
- Foi o inverso, brincas de mim, digas que não me és!
- Ex-tinta da uva na mancha colheita.
- Escondi-me, chorosa, na única gruta onde meti meu medo. Era eu que me encolhia, desatendia as chamas, ID oculta.
- Borraram meu paladar essas tuas insanidades! Vou indo e vindo sempre alheio aos provérbios bíblicos, acompanhando a linhagem dos ancestrais que nem sequer sabem que estou vivo.
- Meus pêsames! Desposarei a solidão curadora, sei até demais que estás vívido, mas isto é só a carne, não vês? Não sejas descortês comigo!
- Justo tu Doris, que és da minha linhagem e nem sequer sabes que em pecado nossos pares se amaram?
- Sustentaremos esse vício incestuoso com o quê? Como os nossos pães, feito nossos pais?
- Frutos do avesso se entrelaçaram e o que somos além de vassalos na sede do incesto?
- Um cesto de bicho, um resto de rabisco, um risco no gesto.
- A falta que me faz na relva e nessa fenda que ofusca meu olhar cinzento é meu querer e nada mais, minha veste de saco amarelado e esquecido...
- Uma gota de linha sobre o tecido marcado do corpo sanguerreado pela sutura, satura unido. Estamos machucados no íntimo, querido!
- Amarrados com as correntes escravizadas.
- Sim, feito ovos mal-chocados pelo cosmos!
- Agora lamentas?
- Somos cúmplices dos cuspes mal escarrados...
- Murmuras?
- Sempre, e sem soluçar!
- Choras de bruços para não ser deslumbrada?
- De barriga para cima, vazia do nosso filho único.
- Olhe para lua e deixe seus olhos engolirem todo o raio do desatino!
- Prefiro degustar a corrente do trovão, a Thor-menta elétrica na boca.
- Nessa utopia presa no teto do teu quarto, no copo derramado na sala...
- Não há lugar, nem tempo.
- Nem aspirinas que curem a batalha naval enferrujada.
- Nem sangue tetanoso a matar devagarzinho 2 olheiros à 1 cajadada.
- Quero meu canto... Entoar meu grito!
- Mastigo os teus estilhaços híbridos...
- Irei empobrecer deitado em teu cavalo de palha na boca.
- Corcel negro sem cabeça, cavalheiro pálido! Cavaleiro esquálido!
- Dou-te o ar da desgraça.
- Dou-te a graça da dor úmida e gratuita.
- No toque berrante da sétima trombeta com 2 chagas apontadas pra dentro dos teus olhos.
- Eu acato todos os infernos na pedra eclética dos sons astrais imprevisíveis, eu grito de repúdio ao teu ósculo, desinfeta!
- Pilares para os teus pés de asfalto.
- Derreto teu sapato alto, pois nos céus mais em baixo fincam.
- A gota d’água ferve e segue em frente.
- A delirante da lira.
- Sei, a de dentro da caixa de remédios...
- Tudo me incomoda de nada, nem sigo modas de fada sem conto, injeto teu sangue preto no ponto congênito.
- E saiu sorrindo teu embrião na amostra dos óculos de graus: faz calor faz frio.
- Miopira, pira de fogo, redunda mio sem meada, visão de um duplo: um fantasma fora do foco.
- Balde cheio da ferida, querida, um copo submerso na areia...
- Derramo na cara da calçada escaldante, sobe a fumaça de alívio.
- Minha última lembrança da morte presa entre meus dentes, na língua.
- Há um corte que divide o cérebro não à toa.
- Há uma vida que nos separa não por acaso.
- Tudo se divide, tudo esmaga minha razão em fuga... Foge comigo!
- Vira suco da cana que mói o corpo, tira alma. Ora, fique consigo!
- Chupo o bagaço, bebo a caixa, assa branca.
- Vou fechar a tampa para calar.
- Dê a descarga, não vá olvidar!
- Raspar para escapar, abrir para te achar, entrar sem te falar, empurrar para te ver gritar, tirar para te ver chorar.
- Rasgo as unhas nos teus dentes a sorrir. Isso é viver já vi, mas ver... Crer é cego perigo.
- Quero mais outras vidas, mais e mais, a mais do que a menos. Vou colocar o cadeado na tampa, agora as socorre da morte certa.
- O quê? Eu arrombo!
- Vou escrever teu nome Dora ou devo te apelidar de Doris?
- Ardores a mim em mil maneiras.
- Escreverei conforme o espaço me permita
- Nome não é coisa de cofres, Antenor!
- Então te deito em paz e te sepulto Doris DorAlice!
- Segredas as palavras sãs, porque já sou morta-viva.
- E serás conhecida como binário.
- Antes um que zero à sinistra, que mal desperta para viagens eternais.
- Para todo o sempre, amém, querida!
- Amem a dores permaneço vítrea.
- Teu baú jogado ao mar me dizendo adeus em mar de flores vermelhas tingidas de sangue.
- Adeus nunca, ao diabo!
- Meu nome Antenor não te atende mais.
- Tarde já vais, ignora tua Dora dor. Antenas sem fio dão cabo à nossa paz... Mas descanse nela!
- Prometerei me equilibrar nela para não te dar choque em demasias.
- Equilibristas costumam cair no cio da navalha... Serei a bêbada, prefiro.
Texto: Harley Maquiavel e Paola Benevides
Ilustração: Harley Maquiavel